Naldo Dias vivia os extremos todos os dias

Por Edmar Ferreira

Foi muito estranho chegar ontem na redação da Gazeta de Limeira pela manhã e não ver Naldo Dias no seu canto, de boné do UFC, com sua bolsa bege e falando alto ao telefone.

Nossa, minha ficha e de toda equipe ainda não caiu. Como assim? o Naldo morreu? Mas ele só tinha 54 anos.

Vivi dois momentos bem distintos com ele. Num primeiro momento foi bem difícil, confesso. Ele tinha a nítida impressão de que eu queria “tomar o seu lugar”. Mas na verdade eu sempre queria ajudá-lo. Walfrido Salvi era o nosso intermediador. Quantos perrengues.

Aos poucos o Naldo foi se acostumando comigo e passamos a viver uma parceria bastante agradável. Não tinha um dia sequer que não nos falávamos.

Em 2001, na minha primeira partida como narrador esportivo na Rádio Educadora, foi o próprio Naldo que colocou o microfone em minhas mãos e disse: “vai lá garotinho. Aproveita essa chance”. E era simplesmente um Inter e Corinthians, no Limeirão.

Naldo, que nasceu em Muzambinho, Minas Gerais, vivia os extremos. Era bravo, invocado e não fazia questão de ser agradável com as pessoas. Não gostava de “babar ovo”, frase muito usada por ele. Não “enfeitava o pavão”. Era seco, sorria pouco, cumprimentava raramente e ficava constantemente nervoso.

Por outro lado, quando estava nos seus dias, sua veia humorística o deixava engraçado, divertido e cheio de histórias. Ele transformava nossas viagens pelo interior paulista num verdadeiro stand up. Era santista, mas não fanático. Trocava o jogo da televisão para ouvir rádio.

Dono de bordões como “umas coisas”, “fala comigo” e “oh pai”, Naldo era muito conhecido, respeitado e ao mesmo tempo temido, principalmente por dirigentes. E os leoninos sabem muito bem do que estou falando. E quando se juntava com o Lemão fotógrafo então. Deus o livre!

Naldo inventou a palavra “enfurmigar”. E não é que todo mundo da equipe passou a usá-la. É a forma mais sintetizada de dizer que algo está incomodando, ou seja, “tá enfurmigando”. Limeira adotou esse bordão.

Naldo era parceiro da Copa Gazeta. Participou de todas as edições da chamada “Libertadores do Amador”. Era admirado no Campeonato Amador e não tinha preguiça de trabalhar. Domingo cedinho já estava em pé.

Aliás, foi o primeiro treinador a usar paletó nos tempos de Metalafe. Ele batia no peito e dizia que Vanderlei Luxemburgo o copiou. Naldo só não sabia dirigir. Gastou muito com táxi e uber. E pedia carona sempre. Pacote e Zé Carlos que o digam.

Tive a honra de apelida-lo de Pitbull. Também pudera, ele só falava de cachorro, uma de suas paixões.
Dormia pouco, trabalhava muito com sua equipe de segurança, estava sempre com o Dalton, era antenado e muito bem informado. Qualquer ocorrência policial, lá estava o “gordinho” junto dos policiais. Na verdade seu sonho sempre foi ser PM.

Sua morte repercutiu em todo o Brasil. Até o Jornal O Dia, do Rio de Janeiro, destacou seu falecimento. O Futebol Interior colocou no título: “Morre o repórter esportivo número 1 de Limeira”. Nada mais justo. Era o setorista que acompanhava a Inter desde 1982.

E nada mais justo a diretoria leonina, através do amigo Liminha, batizar a cabine 7 do Limeirão de “Naldo Dias Salvador”. Vai ser difícil chegar ao local e não lembrar dele.

Quando deixei a Rádio Educadora no mês de março, Naldo Dias foi a pessoa que mais ficou ao meu lado. O tempo todo me falava que tinha projetos para meu retorno e que sentia muito minha falta, principalmente nas transmissões no Limeirão.

E ele tinha tudo para ficar bravo comigo, pois deixou de transmitir o Amador pela emissora. Perdeu muito dinheiro com isso. Mas nossa amizade falou mais alto.

naldo dias 3

Tive a honra de transmitir mais de 700 jogos ao seu lado, muitos memoráveis, como o acesso do Leão com dois gols do Éder Paulista. Eu tinha uma grande sintonia com ele. A gente se divertia nas transmissões. Eu gostava de estar ao seu lado.

A gente tinha vários rituais antes dos jogos. Primeiro, eu lhe dava duas maçãs do Oba e um mel e em troca recebia um lanche da cozinha do Limeirão que ele mesmo ia buscar. Eu pegava a escalação do adversário e ele da Inter. Era o primeiro a chegar no Major Levy e o último a sair.

Quando a Inter vencia, gostava de esticar seus comentários. Quando perdia, não via a hora de ir embora. Era um comentarista de mão cheia que fazia o torcedor parar para ouvir. Falava fácil, sempre com sua voz potente.

Fugia dos fiscais como Neymar dos adversários porque não tinha carteirinha. Comentava os jogos porque cuidava da segurança.

Odiava as músicas do César Roberto no Painel Esportivo, ainda mais quando estava com um entrevistado no Limeirão. Meu telefone fervia todo dia. Ele ficava uma pistola e dizia: “mas não é possível, isso é programa de esporte não o Ed Música”. E quando o Cesinha lia suas 32 propagandas no intervalo, Naldo “queria morrer”. Chegava até a bater no seu rádio. Era engraçado.

Ao mesmo tempo em que era invocado, Naldo gostava de participar de campanhas de solidariedade. Arrecadava leite, alimentos, brinquedos e até dinheiro em seus programas.

Naldo ganhou o apelido de “Milton Neves do Interior”, por gostar de fazer seus merchans. Falava sempre em nome da empresa aérea Lufthansa e de Johnson e Johnson. Era uma comédia.

Trabalhava na Gazeta há mais de 20 anos. Ele tinha um enorme problema com pontuação. Os revisores sofriam, mas ele conseguia passar a informação, tanto em suas matérias, quanto nas colunas “Fala Naldinho” e “Rota da Informação”.

Pitbull tinha um enorme prazer de afirmar que estava sempre armado. E quantas vezes eu não via seu “kit Rambo” na bolsa. Tinha até soco inglês. Mas graças a Deus, não precisou usar em nenhum jogo, pelo menos comigo. Em Rio Claro ele foi obrigado a mostrar para um torcedor exaltado. Foi hilário.

Eita Naldinho, porque você nos deixou tão precocemente? Que amigo perdemos. A imprensa ficou órfã sem você. Seus inúmeros fãs sentirão muito a sua falta. Obrigado por fazer parte da minha vida e dos limeirenses. Você foi uma pessoa marcante! Pimbaaaa aí no céu parceiro!

2 comentários em “Naldo Dias vivia os extremos todos os dias

  • 9 de outubro de 2018 a 10:40
    Permalink

    Parabéns Edmar pela homenagem feita para o nosso Amigo e inesquecível Naldo Dias Bem lembrado época da Metalafe Naldinho aparece de Paletó no Vestiário Imagina Figurinha kkkkkk Parabéns mais uma vez Edmar Abraço

    Responder
  • 10 de outubro de 2018 a 16:44
    Permalink

    Parabéns pela homenagem Edmar. Naldo vai fazer muita falta, principalmente no Amador. Tive a honra de ser entrevistado por ele varias vezes nos jogos.

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *